IMPRESSÕES AO PILOTAR
SOVA
fotos e texto: Juca
revista

 

 

 

 

 

Eu estava sentado na varanda do Hotel Portobello em Angra dos Reis, observava uma gaivota que insistia num rasante que me deixava assanhado, afinal, estava no meu quarto dia das merecidas férias e já não pilotava um avião Há mais de 6 dias. Se bem que no Portobello as atividades são tantas que não dá tempo de sentir saudades de nada, esqueci até de ligar para minha mãe e lembrá-la de seu remédio das 9 horas. Enquanto voava com a gaivota, meu celular toca, quebrando o encanto:  

“Juca é o Augusto da Starflight do Rio de Janeiro. Sabia que você estava próximo e gostaria de convidá-lo para amanhã, sábado, executarmos o “Impressões ao pilotar” do Sova, é só pintar lá no CEU (Clube Esportivo de Vôo), abraços.”

O Homem toma algumas decisões, que até as mulheres duvidam...  


 O SOVA lembra um Tucano T-27



Jacarepaguá (RJ) meio-dia, o sol rachava taquara verde, a temperatura era medida em polegadas e o Augusto me recebe sequinho ao lado da bela piscina do CEU. Fiquei frustrado em não ter encontrado o Armando Nogueira (estava louco para receber um elogio sobre a revista), afinal ele tem “alguma” experiência jornalística.  

  
Como de costume conversamos um pouco.

Augusto Barroso brevetou em 1962, tem 60 anos (não aparenta mais de 59), casado, pai de 2 filhas e tem algumas paixões, dentre elas velejar e, às vezes, fica em dúvida entre o céu e o mar. Constrói ultraleves desde 1985 e o modelo mais conhecido é o Fox II, que já vendeu mais de 700 exemplares. Após uma visita à fábrica do Sova numa cidade próxima de Praga, na república Checa, decidiu representá-la e a partir daí emprestou sua experiência e passou a comercializar o ultraleve.  
 

O aviãozinho nem de longe pode ser chamado de experimental, pois a única coisa amadora dentro dele era o editor aqui. O Sova chega no Brasil parcialmente desmontado. Seu projeto obviamente teve influência da escola russa,  basta notar que lembra um Mig ou um Tucano ou qualquer caça. É equipado com motor Rotax 912S de dupla carburação e dupla ignição, aquele que o Gerard deu a volta ao mundo. Esse motor tem 100hp, suficiente para lançar o Sova a uma velocidade de cruzeiro de 140 milhas, consumindo 19 litro por hora. Claro que a tarefa fica facilitada por conta de uma aerodinâmica perfeita. A hélice de passo variável também auxilia, aliás, o sistema de mudança de passo é mecânico e por mais que pareça uma engenhoca é muito confiável e independe do sistema elétrico e hidráulico e, para acioná-lo basta girar uma manivela no painel. Seu baixo peso (282 kg vazio básico) deve-se aos nobres materiais utilizados – alumínio, fibra de vidro, kevlar e alguns componentes em fibra de carbono. Decola com dois ocupantes e mais 64 litros de avgás BR (tenho que falar da Petrobrás, pois ela patrocina o CEU), e é possível adaptar tanques auxiliares estendendo sua autonomia de 3 horas para quase 5 horas.  


Apesar da temperatura escaldante o Augusto  estava sequinho


Enquanto isso eu derretia  
feito um esquimó



Engenhosa fixação do motor


O trem de pouso recolhe parcialmente



O Flape Fowler tem duas posições


Algumas soluções merecem destaque: o trem de pouso triciclo de acionamento elétrico, escamoteável, que recolhe parcialmente as rodas tem um sistema de amortecimento muito engenhoso e sofisticado, assim como a fixação do berço do motor. Outro bom exemplo da engenharia “checa” é a solução encontrada para o duplo travamento do canopi, que tem sua abertura para frente descartando a possibilidade de perdê-lo em vôo. Vou recomendar este sistema para o Eng. Viana da Aeromot, fabricante do Guri, talvez ele goste também da disposição das entradas de ar que refrigeram a cabine. Os ocupantes ficam confortáveis nos anatômicos assentos, pena que os cintos de quatro pontos são chatinhos. Aos poucos vou me acostumando com os motores Rotax de alto giro, pois sua marcha lenta estabelece 2.500 rpm fazendo o redutor de velocidade do eixo trabalhar apressado. 

O manche tipo palito é tudo que um piloto de acrobacia deseja, com a vantagem de abrigar um compensador (trim) decidido e de respostas prontas. A manete de potência está bem à mão,  só achei um pouco exagerada, os pedais não merecem elogios e o sistema de freio com acionamento somente no manche do comandante é o ponto falho do projeto,  se bem que o Augusto me confidenciou que o sistema é simples, eficaz e economiza algumas “doletas”, e até mesmo um piloto mediano como eu pode se acostumar, esquecendo aquelas manobras rápidas e precisas no solo, já que a bequilha responde, mas demooooora.  

A decolagem foi tranqüila e utilizou uma parte da “imensa” pista de 500 metros coberta por um gramado bem cuidado. O Sova esbanjou potência e cravou 1.000 pés de subida, necessitando de 10 minutos para atingir seu teto máximo de 10.000 pés (acima disso é melhor você comprar outro avião). Aproamos a Restinga da Marambaia e quase atropelamos um Aero Boero que mantinha velocidade máxima de 90 mph, o Sova voava a 140 com 75% da potência. Os comandos respondem com precisão, porém senti falta da manete de potência no lado esquerdo, e após algumas tentativas de perda descobri que o experimental a 35 milhas ainda voa. Ensaiei um oito preguiçoso, mas logo percebi que o Augusto não gostou, ressaltando que a fábrica não recomendava manobras acrobáticas. O Aero Boero que ultrapassamos informou que pousaria no Galeão, enquanto o Sova não poderia se quer pousar em Jacarepaguá ( a legislação está sendo repensada...)  

Estávamos no céu e decidimos pousar no CEU (Clube Esportivo de Vôo): passo ajustado, mistura rica, 90 milhas no velocímetro e um conjunto de Flape Fowler que quando acionado na segunda e última posição faz o avião pousar como um Boeing, pois a área da asa é aumentada em quase 1 metro. Quando descobri a pista já era tarde, estava tão alto que deu para testar o quanto o aviãozinho glissa, e quando toquei o solo verde o Augusto apossou-se do meu manche para ativar os freios evitando um “sonoro” banho no Oceano Atlântico.

Vale lembrar que dependendo da composição o Sova pode custar bem menos, bastando equipá-lo com hélice de passo fixo, trem fixo, pintura lisa, motor Rotax 582 (dois tempos), painel espartano e muita vontade de ser pão-duro.

O Augusto viaja pelo Brasil para demonstrá-lo, participando de encontros e eventos, uma maneira inteligente e prazerosa de vender aviões e se divertir ao mesmo tempo. O preço e as informações técnicas que o editor aqui esqueceu devem ser esclarecidos através do telefone (21) 3890-3337 – www.starflight.com.br .   

 

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