IMPRESSÕES AO PILOTAR
MAX II – Um Anfíbio Brasileiro
Por:  Juca
Fotos: Juliana Fernandes
Artigo autorizado extraído da revista Freqüência Livre, edição n° 5


o apaixonado 
Armando Nogueira
 

Não consigo imaginar o Armando Nogueira reclamando de alguma coisa. Até mesmo seus raros repentes de insatisfação me causam uma elegante inveja, afinal, cabe ao mestre equivocar-se e a partir daí estabelecer uma nova ordem.

Apaixonado por pequenos aviões, piloto desde os cinco anos, quando já sonhava em pilotar uma máquina que pudesse levá-lo o mais distante possível da terra ou do mar... Tantos anos depois o ainda travesso Armando desejava voar o mais próximo do mar e definitivamente se encantava com os aviões anfíbios, ainda mais morando no Rio de Janeiro,  uma cidade “aquática”.


o segredo do projeto é a canoa

 

   Decidido, pediu ao amigo Miguel Rosário, um português de Angola adotado pelas praias cariocas desde 1977, de 41 anos, pai do Gabriel de 7 anos,  projetista aeronáutico e profundo conhecedor dos desejos do mestre, que desenvolvesse um projeto para a construção de um experimental anfíbio, talvez até para resgatar a proposta do clube CEU (Clube Esportivo de Vôo) que por vocação e localização deveria ser a base natural dos anfíbios.
    Durante dois anos o Miguel dedicou-se ao projeto, otimizando os custos de desenvolvimento que o próprio Armando bancou, que resultou no nascimento de um rebento que promete repensar nossa aviação desportiva: o MAXII.

   Nem tudo veio do “céu” ou do Armando. Paulo Renha, construtor de barcos da Real Boat, emprestou seus conhecimentos desenvolvendo uma canoa que possibilitasse ao Miguel construir o avião. Com uma hidrodinâmica pra lá de perfeita, o dedicado construtor pôde utilizar-se de materiais compostos por fibra de vidro, fibra de carbono e keviar para compor uma fuselagem em três sessões tipo ovo de páscoa. O confiável motor austríaco Rotax 912, de 4 tempos e de 80hp, foi requisitado para girar uma hélice tripá de passo variável e levá-lo confortavelmente para uma velocidade de cruzeiro de 110 milhas e subir 800 pés por minuto sem muito esforço, já que seu peso básico de 300 quilos denuncia a utilização de alumínio, fibra de carbono e aço inox na confecção do trem de pouso triciclo, de recolhimento elétrico, que pode ser feito em 8 segundos.

   Anotava tudo o que o piloto de testes Augusto me dizia, porém estava ansioso para pilotá-lo e com a desculpa de fotografá-lo... o convite veio naturalmente.
   Sentei na direita e logo descobri por quê. O freio só estava instalado nos pedais esquerdos, impedindo a sua utilização para treinamento. Durante o táxi, o calor é insuportável devido à abertura total para frente do canopi; entradas de ar nas laterais resolvem a refrigeração em vôo. A posição de pilotagem para os dois ocupantes é boa, a regulagem dos bancos pode acomodar até um gigante com mais de dois metros de altura, facilitada pela manete de potência também na lateral direita, e mesmo com a estranha sensação de “inferioridade” pela proximidade do solo o passarinho saiu do chão com um vigor que pode retardar a utilização do motor 912 S, de 100 hp. A utilização dos flapes de três posições positivas e uma negativa é desnecessária, porém vale lembrar que quando negativa sua velocidade de cruzeiro pode ser aumentada em até 10 milhas. O motor instalado na traseira, acima do canopi, deixava-o silencioso, e mesmo sem a devida forração acústica dava para ouvir o sorveteiro gritando na praia da Barra da Tijuca (claro que é mentira). Girando a 4.800 rpm, o MAX consome 16 litros/hora e garante uma autonomia de seis horas, já que seus dois tanques instalados nas asas têm capacidade para 50 litros cada um. Até então, as coisas caminhavam bem, mas o que estava ansiosamente esperando era o pouso na água. 

O Augusto tinha me alertado que o pouso deve ser feito com o vento bem aproado e com uma velocidade de aproximação em torno de 55 milhas, já que a perda dos comandos (stol) dificilmente acontece depois de 30 milhas. Lembrou-me ainda que quando a água estiver espelhada e calma, pode-se perder a sensação de profundidade. Com uma velocidade acima da recomendada, o MAX tocou as calmas águas da lagoa de jacarepaguá esnobando suavidade. Aquele esperado tranco não aconteceu, nem mesmo um único pingo d’água no parabrisa, intrigante. Não satisfeito pedi para o Augusto um outro toque e arremetida com vento de cauda e assim pude sentir sua manobrabilidade em cima d’água: ele faz até curva de reversão lembrando um jet-ski, amparado por flutuadores na ponta das asas, que permitem sua estabilidade quando parado. Depois de uma arremetida com o canopi seco, voltamos para o céu e pousamos full flape na pista do CEU onde míseros 150 metros foram necessários para pôr fim ao que parece ser o início de uma nova ordem na aviação aerodesportiva brasileira: a descoberta dos anfíbios num país “aquático” por natureza. O painel depende do bolso do comprador. O modelo testado tinha o básico acrescido de um GPS Garmin 295 de tela colorida. O construtor Miguel garantiu-me que os próximos modelos virão equipados com um leme de água. É possível dobrar suas asas para trás, facilitando a hangaragem, porém é bom lembrar que o processo de desligamento dos circuitos deve ser um pé no saco. A fábrica está capacitada para construir um por mês e promete a entrega nos próximos dias de um modelo especial a pedido do próprio Armando com um acabamento em tecido térmico e impermeável, já que a “Velha Águia” me prometeu um vôo sobre a região dos Lagos e uma matéria memorável, na próxima edição. Tá contado.

 
Todas as dúvidas que o editor aqui gerou serão esclarecidas pelo fabricante, inclusive o preço, através do telefone (21) 2440-9290 Miguel.

 

 

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