A Comédia de Dante
Relato por: Rynaldo Gondim
 
 

O tempo estava ruim. Teto baixo e chuva intermitente durante todo o vôo. Depois de voar uma hora e meia naquela mesma proa, já era hora de encontrar a pista. Mas ela não estava ali.

O vento soprava de oeste para leste e, possivelmente, afastou a aeronave da rota. Curva à esquerda, mais 30 minutos de vôo, e nada de pista. O comandante conclui já ter passado do campo de pouso e decide fazer uma curva de 180 graus.


Os oito passageiros do Cessna Skyhawk – que tem capacidade máxima de 4 pessoas, incluindo o piloto – estavam aflitos. Mas eles não tinham como se comunicar com o comandante para saber o que acontecia. O Cessna não tinha fones. Aliás, não tinha nada. Nem bancos, a não ser o do piloto. Os ocupantes se espremiam, um na frente do outro, sentados com as pernas esticadas, como nos aviões de pára-quedistas. O desconforto era total, apesar do alto custo da passagem: 30 gramas de ouro.

Uma hora depois do estimado, o comandante finalmente avistou a pista, se é que dava pra chamar aquilo de pista: uma trilha estreita e íngreme – 30 graus de inclinação – no meio da densa floresta amazônica.

Não preciso dizer que o pouso ali era sempre complicado. Como a pista ficava cercada de pequenos morrotes era necessário picar o avião e imediatamente depois jogar o nariz pra cima para matar a velocidade e se encaixar na inclinação da pista sem deixar o trem do nariz tocar antes do principal. O Comandante Geo já tinha operado ali diversas vezes e talvez tenha sido o seu excesso de tranqüilidade diante de uma situação tão crítica a principal causa do acidente.

Logo após deixar os morrotes pra trás, o comandante começa a cabrar a aeronave. A velocidade despenca, e o Skyhawk acaba estolando 10 metros antes da pista, caindo no meio das árvores. Ninguém ficou ferido. E foi assim que Geo perdia o seu primeiro avião na “floresta doente”, como ele se referia à Amazônia.

Anos depois, ele perderia um segundo monomotor depois que um cilindro explodiu e voou para dentro do pára-brisa. Assustado, Geo fez uma aterrissagem forçada às margens de um rio. O avião ficou despedaçado, assim como o coração do comandante, que tinha acabado de perder todas as suas economias, penosamente acumuladas em longos anos como piloto de garimpo.

Geo se mudou com sua esposa para a cidade de Nanuque - em Minas Gerais, divisa entre a Bahia e o Espírito Santo – onde conseguira, graças a indicação de um amigo, o emprego de piloto particular de um grande empresário.Foi num restaurante da pequena e charmosa Nanuque que o Comandante Geo contou essa e outras história para nós. Ele tomava um refrigerante, enquanto eu e meu irmão tomávamos uma geladíssima e merecida cerveja após 6 horas de viagem a bordo do PU-SEG.

Eu havia tirado 15 dias de férias, e meu irmão aceitou fazer comigo uma pequena viagem, que começou no Rio e, depois de uma pequena escala em São Paulo, tinha como destino final a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde, no fim de semana, aconteceria um encontro de aviação.

 

No dia 12 de setembro, terça-feira, chegamos cedo ao Clube CEU (RJ). A idéia era decolar às 8 horas, mas tivemos alguns atrasos na calibragem dos pneus e outros contratempos. Verne Callado, o mecânico responsável por nossa aeronave, nos ajudava com os últimos preparativos. Mas quem o conhece sabe que, a despeito de ser um mecânico excepcional, rapidez não é exatamente a sua característica mais marcante.

RIAM concluído. Óleo, velas sobressalentes e bagagens a bordo. Tudo estava pronto e em perfeitas condições. Com exceção do voltímetro, que merecia ser monitorado com atenção especial. Semanas antes, o retificador havia apresentado problemas em vôo mesmo depois de substituído, e eu não queria nenhuma bateria derretendo no meio da Serra do Mar ou nas montanhas de Minas Gerais. Mas, como pude verificar depois, o terceiro retificador solucionou o problema definitivamente.
 

Decolamos do Clube CEU rumo ao Campo de Marte, onde eu teria que fazer duas horas e meia de vôo num Tupi P28A, para concluir minha instrução no curso de PP e depois seguir viagem para Varginha a bordo do meu Golf. Mas, chegando a São Paulo, a instrução também atrasou, e decidimos sair na quarta-feira, bem cedo.

 


 

        

 
 

Enquanto eu voava no Tupi, meu irmão almoçou no Aero Buffet, ao lado do Aeroclube de São Paulo. No cardápio, tem uma lista de frases sobre o mundo da aviação colecionadas pelo simpático dono do restaurante, Sr. Dante Di Camillo. São essas frases que inspiraram o título deste relato, e, ao longo do texto, você vai se divertir com algumas delas.

Às seis da manhã, já estávamos desamarrando o avião. Milagrosamente, Marte amanheceu sem aquela famosa névoa, comum nessa época do ano, e o plano de vôo até Varginha já havia sido apresentado por telefone na noite anterior, com decolagem prevista para as 6h30, hora local.

Meu irmão parecia mais empolgado que eu. Deixe-me apresentá-lo. Ricardo Gondim é roteirista e não entende absolutamente nada de aviões. Ele não tem carteira nem de motorista de carro e mal sabe caminhar em linha reta. Ricardo herdou do nosso falecido pai um charmoso jeito de andar que lembra um ganso com artrose. Mas, além do andar de ganso, meu irmão também herdou do nosso pai a admiração por aviões e, justiça seja feita, ele se mostrou um excelente co-piloto de primeira viagem: não se mostrou nervoso, fez poucas perguntas imbecis e marcava nossa posição no mapa com um erro de, no máximo, 50 milhas.

Decolamos exatamente às 6h30 e seguimos até Bragança Paulista pelos corredores visuais e depois subimos para o FL055 na proa de Varginha, onde aterrissamos uma hora e meia depois, conforme o previsto. Abastecemos a aeronave, fumamos um cigarro – evidentemente longe do local de abastecimento – e partimos para Carlos Prestes.

Meu irmão, que já havia ficado encantado com a simpática recepção que tivemos em Varginha, confirmou em Belo Horizonte que esse pessoal de aeroporto é mesmo gente fina. Basta chegar um aviãozinho que não está acostumado a pousar ali, e já começa a juntar uma turma querendo saber detalhes da viagem. Em Carlos Prates, fizemos um novo abastecimento, e o preço do Avigas me fez lembrar da primeira frase do cardápio de Dante:

“ESQUEÇA TUDO QUE VOCÊ APRENDEU SOBRE EMPUXO E ARRASTO. O QUE FAZ UM AVIÃO VOAR É DINHEIRO”.

Fizemos mais um pouso, em Governador Valadares, onde um piloto da Polícia Militar recomendou a cidade de Nanuque para passarmos a noite antes de prosseguirmos até o Nordeste. Foi o que fizemos.

Todo esse trecho de Marte até Nanuque era o que mais me preocupava, pois depois estaríamos voando perto do litoral. Mas cruzar Minas Gerais voando sobre todas aquelas montanhas, com poucos pontos de apoio em caso de pane, era sem dúvida a parte mais crítica de nossa navegação. Mas o tempo estava ótimo, com boa visibilidade, e às 17 horas (local) aterrissamos em Nanuque com a sensação de dever cumprido, um grande sorriso no rosto e a bunda doendo pacas. Num só dia, voamos 6 horas.

O guarda-campo do aeródromo não estava, e fomos recebidos pelo filho dele, que nos deu uma tremenda idéia imbecil, que nós, idiotas, acatamos imediatamente. “Se vocês vão decolar cedo amanhã, por que não dormem neste motel aqui em frente à pista?”

O Motel Tentação lembrava meus 18 anos, quando, nas raras situações em que eu conseguia comer alguém, ia direto para o Motel Villa Verde, na Rua Haddock Lobo, na Tijuca. Decoração deprimente, uma delicada fragrância de mofo e aquele radinho com quatro estações à sua escolha tocando as mesmas músicas.

 

    

 

 

O pior de tudo é que, sempre que eu levava uma menina para o Villa Verde e ligava o rádio, imediatamente depois surgia a propaganda de um motel fantástico com duas piscinas, salão de dança, sauna e teto solar automático. Não podia ser mais humilhante. Imagine uma mulher naquele muquifo ouvindo a propaganda de um palácio. Se ela tivesse alguma dúvida que estava com o cara errado, a dúvida terminava na hora.

Ali em Nanuque, a comparação com o meu passado era boa por um lado e ruim por outro. Boa porque antigamente eu chegava no motel-muquifo a pé e, agora, estava chegando de avião. Ruim porque, antes, eu chegava no motel com uma mulher – mesmo que não fosse grande coisa – e, agora, estava chegando com meu irmão.

Voltemos para a história da viagem. Guardamos as bagagens no muquifo e pedimos um táxi para a cidade. Não preciso dizer que sempre que pegávamos um táxi indo ou voltando do motel, podíamos ver os olhos arregalados do motorista pelo retrovisor: “O que essas bichas vieram fazer aqui?”

No terceiro táxi que pegamos, meu irmão já entrou no carro dizendo ao motorista: “Não sou veado, mas leva a gente pro Motel Tentação”.

Meu irmão disse que em Nanuque todas as mulheres parecem a Daniela Sarahyba, mas as mais velhas têm, no máximo, 15 anos. Se meu irmão não me dissesse, eu nem teria reparado. Sou muito desligado em relação a essas coisas. Deve ser porque eu tenho uma linda namorada que costuma ler tudo que escrevo. Mas, segundo meu irmão, Nanuque é uma espécie de Lilipute das modelos e manequins.
 

“PILOTOS SÃO ALMAS CONFUSAS. QUANDO ESTÃO ENTRE PILOTOS, SÓ FALAM DE MULHERES E, QUANDO ESTÃO ENTRE MULHERES, SÓ FALAM DE AVIÕES.”

De manhã bem cedo, já estávamos na pista. O tempo não era bom. Nuvens baixas, chuvas isoladas e visibilidade restrita. O METAR dizia que Porto Seguro estava melhor que Caravelas. Os dois aeroportos estavam abertos para vôo visual, mas com visibilidade e teto pouco acima dos mínimos.

Tínhamos combustível suficiente para ir direito para Porto Seguro e, então, rumamos para lá. Só que, depois de 20 minutos de vôo, as nuvens colaram em uma pequena cadeia de montanhas, impedindo nossa passagem. Pedi ao meu irmão: “Vê aí no mapa a altura dessas montanhas”. Ele respondeu: “Essas montanhas não estão aqui no mapa.” Pedi ao Ricardo que segurasse o manche e peguei a carta meio aborrecido com a incompetência do meu copila. Mas o homem estava certo. Aqueles morrotes não constavam no mapa. Subi em espiral para ver a possibilidade de passar por cima da camada. Mas, acima da primeira, havia uma segunda camada, e eu não estava afim de virar recheio de sanduíche. Decidimos retornar para Nanuque.

    
 

O tempo sobre a cidade havia piorado e pousamos debaixo de chuva moderada. Pensei comigo: depois desses 50 minutos de vôo inútil, vamos ficar com combustível na conta certa para chegar a Caravelas na próxima decolagem. O que me fez lembrar de uma velha história em São Mateus.http://www.abul.com.br/aventuras/rio-pseguro-rio/relato.htm

“A ÚNICA SITUAÇÃO EM QUE VOCÊ PODE ACHAR QUE TEM COMBUSTÍVEL DEMAIS É QUANDO HÁ UM PRINCÍPIO DE INCÊNDIO EM SEU AVIÃO.”

    

Em Nanuque, havia um hangar. Logo, deveria haver um avião. Logo, deveria haver combustível. Foi com esse perspicaz raciocínio e com a ajuda dos moradores de Nanuque que chegamos à loja do Comandante Tadeu, proprietário de um Monney e de um Pelican, o único aliás que voa sob o seu comando. Tadeu explicou que seu piloto particular, o Comandante Geo, não o deixa nem tocar no Monney. Tadeu nos recebeu muito bem e ligou para seu piloto, que, minutos depois, se juntou a nós.

Antes de pedirmos qualquer coisa, Tadeu disse que tinha estocado mais de mil litros de Avigas e que eu poderia usar o quanto quisesse, pagando o preço que achasse justo. Mais uma vez meu irmão ficou surpreso com a generosidade entre pilotos. O Comandante Geo nos levou até o aeródromo, abasteceu o nosso avião, nos levou para almoçar e, depois de insistentes pedidos meus, nos contou algumas histórias de seu tempo de piloto de garimpo.

Geo dizia que a floresta amazônica era doente. Tudo ali estava contaminado, envenenado, repleto de pragas e de animais à espreita. Segundo ele, árvores enormes, aparentemente saudáveis, eram completamente ocas por dentro por causa da ação de uma espécie de cupim. Homens que dormiam desprotegidos acordavam com um buraco no corpo, invadido por um verme. Só se andava na floresta
de chapéu, caso contrário uma pequena cobra disfarçada de cipó morderia o seu pescoço e poderia matá-lo. Tomar banho no rio nem pensar. O candiru, um peixe minúsculo, tem o estranho hábito de entrar pela uretra humana. E ele só sai de lá com intervenção cirúrgica. Pequenos lagos com água cristalina estavam contaminados. Só se bebia água do rio se ela fosse corrente. Sem falar do risco de ataque de animais ferozes e da malária. Aliás, segundo Geo, todos os garimpeiros, inclusive ele, já tiveram malária. Ao andar na floresta, se você aguçar os ouvidos, vai ouvir uma voz repetindo permanentemente: “Você não é bem-vindo”. Curiosamente, apesar de tudo isso, Geo sente saudades do tempo de garimpo. Definitivamente, esse negócio de ouro vicia.

Na manhã seguinte, o prestativo Comandante Geo estava na porta do hotel para nos levar até o aeroporto. (Sim, na segunda noite, saímos do muquifo). O tempo não estava bom. Geo já trazia o METAR de Porto Seguro e Caravelas. O primeiro aeroporto estava fechado para vôo visual. O segundo estava operando nos mínimos. Ele nos aconselhou a permanecer em Nanuque.

“É BEM MELHOR ESTAR AQUI EMBAIXO DESEJANDO ESTAR LÁ EM CIMA DO QUE ESTAR LÁ EM CIMA DESEJANDO ESTAR AQUI EMBAIXO.”

Apesar da simpatia de nossos anfitriões e da cidade, eu queria aproveitar minhas férias. Queria voar. Tomei a decisão de esquecer o Festival de Mossoró, já que não chegaríamos a tempo, e voltar para Guarapari e aproveitar uma praia, se o tempo por aquelas bandas estivesse melhor. O METAR confirmou que sim. A questão era só saber se conseguiríamos sair de Nanuque. O Comandante Geo me aconselhou a permanecer. Disse que o teto estava baixo demais e que seria arriscado. Mas, como tínhamos combustível à nossa disposição, decidi fazer uma tentativa. Se depois de 10 minutos de vôo na proa de Vitória o tempo não melhorasse, eu retornaria.

“DECISÕES ACERTADAS VÊM COM A EXPERIÊNCIA. A EXPERIÊNCIA VEM COM DECISÕES ERRADAS.”

A decisão foi acertada. À medida que seguíamos, o tempo ia melhorando. No través de Linhares, estávamos praticamente voando livres de nuvens e com visibilidade ilimitada. Pousamos em João Monteiro para deixar o SEG já abastecido e, cinco minutos depois, pousamos em Guarapari. Uma descendente na longa final e um ventinho de través dificultaram o pouso, que acabou ocorrendo sem problemas. Meio catrapo, mas sem problemas.
PS: Sugerimos a moqueca de banana do quiosque do Bahiano.

“EXISTEM 3 REGRAS PRA FAZER UM POUSO MACIO. INFELIZMENTE, NINGUÉM SABE QUAIS SÃO.”

No dia seguinte, caminhamos na praia, tomamos cerveja, comemos camarão, essas coisas desagradáveis que fazemos quando estamos de férias, sabe? À noite, tivemos que encarar uma moqueca de lagosta. Um trabalho sujo, é verdade, mas alguém tinha que fazê-lo.

No dia seguinte, começo da tarde, já estávamos de novo desamarrando o avião. A idéia era seguir direto para Porto Seguro. Mas, na vertical de Prado, o comandante aqui sentiu uma necessidade terrível de drenar combustível. Mas cadê que eu achava a danada da pista? Depois de dar umas 10 voltas sobre o litoral e de dar uns 20 esporros em meu copila e navegador, chamei Caravelas: “Caravelas, o SEG, na vertical de Prado, está seguindo para pouso em seu campo.”

Eu já estava prestes a fazer xixi nas calças. Pousei em Caravelas e corri para o banheiro. Aproveitei para abastecer o avião, antes de seguir para Porto Seguro. Ao passar sobre Prado, consegui localizar a pista. A nova pista. Tanto o GPS quanto a carta forneciam indicações erradas, da pista antiga. Agora, ela não estava mais no litoral, no setor sul, e sim no setor norte, da cidade.

No meio da viagem, percebi que algo estava errado comigo. Comecei a sentir dor no corpo, irritação na garganta e a soar um bocado, a despeito do vento frio que entrava na nacela. A febre estava chegando.

Chegamos a Porto Seguro bem próximo do pôr-do-sol, e o controlador ainda me deixou uns 10 minutos em espera. Pousamos entre dois Fokker 100 da TAM. Meio tenso, o controlador pedia que eu agilizasse o pouso. O que fiz, na medida do possível. Pousei veloz, sem flap, e livrei na primeira interseção.

“VOAR NÃO É PERIGOSO. PERIGOSO É CAIR.”

Ao chegar ao hotel em Porto Seguro, a febre aumentou. Eu suava em bicas, sentia um frio absurdo e meu pescoço estava muito inchado. Resumindo, parecia um buldogue que acaba de sair do banho. Rapaz, eu não sou muito bonito, mas, dessa vez, a situação estava crítica. E meu irmão, um gênio da medicina diagnóstica, ficou apavorado, dizendo que eu estava com dengue.

No dia seguinte, não acordei melhor e fui para uma clínica. O médico disse a frase que eu mais temo na vida, depois de “Minha menstruação atrasou, gatinho”. O médico disse o seguinte: “Você vai ter que tomar Benzetacil. Se quiser melhorar logo dessa amidalite.”

Eu já estava com a poupança doendo, depois de quase 10 horas de vôo. Imagine só. Mas a enfermeira alemã era tão competente quanto assustadora. A injeção não doeu tanto, e, no dia seguinte, eu já estava melhor.

Foram 3 dias de muita diversão, cerveja, capeta (uma bebida local à base de guaraná, leite condensado, vodca e nitroglicerina), camarão, lagosta e praia. Já era hora de ir embora.

Antes, preciso contar algo que, se eu omitisse, meu irmão jamais me perdoaria. A dançarina de axé de um megaquiosque à beira-mar, uma loira bonitona, ficou encantada pelo Ricardo. E, depois que ele conversou com ela, a moça desabrochou e passou a dançar sensivelmente mais animada e mais feliz, sem tirar os olhos da nossa mesa. Ela tinha namorado, e, por isso, o Ricardo não a trouxe pra casa. Mas não é todo dia que uma moça como aquela flerta com você. O ego do sujeito estava tão inflado que temi pelo excesso de peso no avião. Quase o despachei por um avião cargueiro.

“TRÊS FRASES QUE UM CO-PILOTO PRECISA TER NA PONTA DA LÍNGUA: ‘BELO POUSO, COMANDANTE’, ‘FOI O VENTO, COMANDANTE’ E ‘A GORDA É MINHA, COMANDANTE’.”

O vôo na volta foi um pouco tenso. A frente fria que havia passado por São Paulo e pelo Rio de Janeiro agora cobria todo o Espírito Santo. Nenhum METAR dos aeroportos da rota era animador. Só depois de Campos as coisas pareciam melhores. Decidimos voar até Caravelas, abastecer, já que em Porto Seguro não tinha avigas, e lá decidir o que fazer.

Em Caravelas, tivemos um presente: vimos o pouso de um Xavante. Foi a primeira vez que vi o caça de perto, e logo, logo, essa velha ave vai ser aposentada. O piloto era um major da FAB.

Você, assim como os taxistas de Nanuque, vai achar que sou veado, mas preciso confessar uma coisa: o major era boa-pinta, tinha voado na Fumaça durante cinco anos e agora pilotava caças. Fiquei com uma baita inveja do sujeito. Uma espécie de top gun brasileiro. Pronto, agora é que você vai achar que eu sou bicha mesmo. Sim, porque Top Gun é um dos filmes mais gays da história do cinema. Basta lembrar da cena dos pilotos jogando voleibol na areia e de uma das últimas frases do filme: “You can ride my tail anytime”.

Mas vamos deixar de veadagem e contar o fim da nossa aventura.

Decolamos de Caravelas, e, voando baixinho – durante algum tempo embaixo de chuva -, depois de quase duas horas, chegamos a Guaraparí. No dia seguinte, mais duas horas e quarenta minutos de vôo até o Clube CEU.

Durante toda a viagem foram percorridas 1895 milhas em 20 horas.

A aventura não saiu exatamente como planejada. Mas é por isso que se chama aventura. E a coisa mais interessante nesse tipo de vôo são justamente os lugares e as pessoas improváveis que acabamos conhecendo. A gente pode desenhar uma rota, mas o destino está sempre nas mãos do supremo comandante.

Por alguma razão, eu precisava conhecer a pequena Nanuque. Por alguma razão, o Comandante Geo precisava passar suas histórias adiante. Por alguma razão, o Comandante Tadeu precisava saber que, enquanto ele só trabalha, tem gente se divertindo. Quem sabe não pousamos em Nanuque só para atender a um pedido do pequeno avião do Tadeu, que estava se sentindo muito preso no hangar. Por alguma razão, a dançarina de axé precisava do sorriso do meu irmão, e, por alguma razão, o meu irmão precisava do sorriso dela. Seja lá a razão de tudo isso, o melhor da vida é esse vôo rumo ao desconhecido.

Este relato é dedicado aos Comandantes Geo e Tadeu, à formosa dançarina de axé e ao meu irmão, Ricardo, que, muito antes de eu pensar em voar, já era meu navegador.

“A HÉLICE É SIMPLESMENTE UM GRANDE VENTILADOR EM FRENTE AO AVIÃO PARA MANTER O PILOTO FRIO. A PROVA DISSO É QUE, QUANDO ELA PÁRA, O PILOTO IMEDIATAMENTE COMEÇA A SUAR.”
 

 

 
Rynaldo Gondim
Redator da W/Brasil,
piloto de recreio de ultraleve e piloto privado de avião
 
   

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