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Os oito passageiros do Cessna Skyhawk – que tem
capacidade máxima de 4 pessoas, incluindo o piloto – estavam
aflitos. Mas eles não tinham como se comunicar com o comandante
para saber o que acontecia. O Cessna não tinha fones. Aliás, não
tinha nada. Nem bancos, a não ser o do piloto. Os ocupantes se
espremiam, um na frente do outro, sentados com as pernas
esticadas, como nos aviões de pára-quedistas. O desconforto era
total, apesar do alto custo da passagem: 30 gramas de ouro.
Uma hora depois do estimado, o comandante finalmente avistou a
pista, se é que dava pra chamar aquilo de pista: uma trilha
estreita e íngreme – 30 graus de inclinação – no meio da densa
floresta amazônica.
Não preciso dizer que o pouso ali era sempre complicado. Como a
pista ficava cercada de pequenos morrotes era necessário picar o
avião e
imediatamente depois jogar o nariz pra cima para matar a
velocidade e se encaixar na inclinação da pista sem deixar o
trem do nariz tocar antes do principal. O Comandante Geo já
tinha operado ali diversas vezes e talvez tenha sido o seu
excesso de tranqüilidade diante de uma situação tão crítica a
principal causa do acidente.
Logo após deixar os morrotes pra trás, o
comandante começa a cabrar a aeronave. A velocidade despenca, e
o Skyhawk acaba estolando 10 metros antes da pista, caindo no
meio das árvores. Ninguém ficou ferido. E foi assim que Geo
perdia o seu primeiro avião na “floresta doente”, como ele se
referia à Amazônia.
Anos depois, ele perderia um segundo monomotor
depois que um cilindro explodiu e voou para dentro do
pára-brisa. Assustado, Geo fez uma
aterrissagem forçada às margens de um rio. O avião ficou
despedaçado, assim como o coração do comandante, que
tinha acabado de perder todas as suas economias,
penosamente acumuladas em longos anos como piloto de
garimpo.
Geo se mudou com sua esposa para a cidade de Nanuque -
em Minas Gerais, divisa entre a Bahia e o Espírito Santo
– onde conseguira, graças a indicação de um amigo, o
emprego de piloto particular de um grande empresário.Foi
num restaurante da pequena e charmosa Nanuque que o
Comandante Geo contou essa e outras história para nós.
Ele tomava um refrigerante,
enquanto eu e meu irmão tomávamos uma geladíssima e
merecida cerveja após 6 horas de viagem a bordo do
PU-SEG.
Eu havia tirado 15 dias de férias, e meu irmão aceitou
fazer comigo uma pequena viagem, que começou no Rio e,
depois de uma pequena escala em
São Paulo, tinha como destino final a cidade de Mossoró,
no Rio Grande do Norte, onde, no fim de semana,
aconteceria um encontro de aviação.
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No dia 12 de setembro, terça-feira, chegamos cedo ao
Clube CEU (RJ). A idéia era decolar às 8 horas, mas
tivemos alguns atrasos na calibragem dos pneus e outros
contratempos. Verne Callado, o mecânico responsável por
nossa aeronave, nos ajudava com os últimos preparativos.
Mas quem o conhece sabe que, a despeito de ser um
mecânico excepcional, rapidez não é exatamente a sua
característica mais marcante. |
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RIAM concluído. Óleo, velas sobressalentes e
bagagens a bordo. Tudo estava pronto e em perfeitas
condições. Com exceção do voltímetro, que merecia ser
monitorado com atenção especial. Semanas antes, o
retificador havia apresentado problemas em vôo mesmo
depois de substituído, e eu não queria nenhuma bateria
derretendo no meio da Serra do Mar ou nas montanhas de
Minas Gerais. Mas, como pude verificar depois, o
terceiro retificador solucionou o problema
definitivamente.
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Decolamos do Clube CEU rumo ao Campo de Marte, onde eu
teria que fazer duas horas e meia de vôo num Tupi P28A,
para concluir minha instrução no curso de PP e depois
seguir viagem para Varginha a bordo do meu Golf. Mas,
chegando a São Paulo, a instrução também atrasou, e
decidimos sair na quarta-feira, bem cedo.
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Enquanto eu voava no Tupi, meu irmão almoçou no
Aero Buffet, ao lado do Aeroclube de São Paulo. No
cardápio, tem uma lista de frases sobre o mundo da
aviação colecionadas pelo simpático dono do restaurante,
Sr. Dante Di Camillo. São essas frases que inspiraram o
título deste relato, e, ao longo do texto, você vai se
divertir com algumas delas.
Às seis da manhã, já estávamos desamarrando o avião.
Milagrosamente, Marte amanheceu sem aquela famosa névoa,
comum nessa época do ano, e o plano de vôo até Varginha
já havia sido apresentado por telefone na noite
anterior, com decolagem prevista para as 6h30, hora
local.
Meu irmão parecia mais empolgado que eu. Deixe-me
apresentá-lo. Ricardo Gondim é roteirista e não entende
absolutamente nada de aviões. Ele não tem carteira nem
de motorista de carro e mal sabe caminhar em linha reta.
Ricardo herdou do nosso falecido pai um charmoso jeito
de andar que lembra um ganso com artrose. Mas, além do
andar de ganso, meu irmão também herdou do nosso pai a
admiração por aviões e, justiça seja feita, ele se
mostrou um excelente co-piloto de primeira viagem: não
se mostrou nervoso, fez poucas perguntas imbecis e
marcava nossa posição no mapa com um erro de, no máximo,
50 milhas.
Decolamos exatamente às 6h30 e seguimos até Bragança
Paulista pelos corredores visuais e depois subimos para
o FL055 na proa de Varginha,
onde aterrissamos uma hora e meia depois, conforme o
previsto. Abastecemos a aeronave, fumamos um cigarro –
evidentemente longe do local de abastecimento – e
partimos para Carlos Prestes.
Meu irmão, que já havia ficado encantado com a simpática
recepção que tivemos em Varginha, confirmou em Belo
Horizonte que esse pessoal de aeroporto é mesmo gente
fina. Basta chegar um aviãozinho que não está acostumado
a pousar ali, e já começa a juntar uma turma querendo
saber detalhes da viagem. Em Carlos Prates, fizemos um
novo abastecimento, e o preço do Avigas me fez lembrar
da primeira frase do cardápio de Dante:
“ESQUEÇA TUDO QUE VOCÊ APRENDEU SOBRE EMPUXO E ARRASTO.
O QUE FAZ UM AVIÃO VOAR É DINHEIRO”.
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Fizemos mais um pouso, em Governador Valadares,
onde um piloto da Polícia Militar recomendou a
cidade de Nanuque para passarmos a noite antes
de prosseguirmos até o Nordeste. Foi o que
fizemos.
Todo esse trecho de Marte até Nanuque era o que
mais me preocupava, pois depois estaríamos
voando perto do litoral. Mas cruzar Minas Gerais
voando sobre todas aquelas montanhas, com poucos
pontos de apoio em caso de pane, era sem dúvida
a parte mais crítica de nossa navegação. Mas o
tempo estava ótimo, com boa visibilidade, e às
17 horas (local) aterrissamos em Nanuque com a
sensação de dever cumprido, um grande sorriso no
rosto e a bunda doendo pacas. Num só dia, voamos
6 horas.
O guarda-campo do aeródromo não estava, e fomos
recebidos pelo filho dele, que nos deu uma
tremenda idéia imbecil, que nós, idiotas,
acatamos imediatamente. “Se vocês vão decolar
cedo amanhã, por que não dormem neste motel aqui
em frente à pista?”
O Motel Tentação lembrava meus 18 anos, quando,
nas raras situações em que eu conseguia comer
alguém, ia direto para o Motel Villa Verde, na
Rua Haddock Lobo, na Tijuca. Decoração
deprimente, uma delicada fragrância de mofo e
aquele radinho com quatro estações à sua escolha
tocando as mesmas músicas.
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O pior de tudo é que, sempre que eu levava uma
menina para o Villa Verde e ligava o rádio,
imediatamente depois surgia a propaganda de um
motel fantástico com duas piscinas, salão de
dança, sauna e teto solar automático. Não podia
ser mais humilhante. Imagine uma mulher naquele
muquifo ouvindo a propaganda de um palácio. Se
ela tivesse alguma dúvida que estava com o cara
errado, a dúvida terminava na hora.
Ali em Nanuque, a comparação com o meu passado
era boa por um lado e ruim por outro. Boa porque
antigamente eu chegava no motel-muquifo a pé e, agora,
estava chegando de avião. Ruim porque, antes, eu chegava
no motel com uma mulher – mesmo que não fosse grande
coisa – e, agora, estava chegando com meu irmão.
Voltemos para a história da viagem. Guardamos as
bagagens no muquifo e pedimos um táxi para a cidade. Não
preciso dizer que sempre que pegávamos um táxi indo ou
voltando do motel, podíamos ver os olhos arregalados do
motorista pelo retrovisor: “O que essas bichas vieram
fazer
aqui?”
No terceiro táxi que pegamos, meu irmão já entrou no
carro dizendo ao motorista: “Não sou veado, mas leva a
gente pro Motel Tentação”.
Meu irmão disse que em Nanuque todas as mulheres parecem
a Daniela Sarahyba, mas as mais velhas têm, no máximo,
15 anos. Se meu irmão não me dissesse, eu nem teria
reparado. Sou muito desligado em relação a essas coisas.
Deve ser porque eu tenho uma linda namorada que costuma
ler tudo que escrevo. Mas, segundo meu irmão, Nanuque é
uma espécie de Lilipute das modelos e manequins.
“PILOTOS SÃO ALMAS CONFUSAS. QUANDO ESTÃO ENTRE PILOTOS,
SÓ FALAM DE MULHERES E, QUANDO ESTÃO ENTRE MULHERES, SÓ
FALAM DE AVIÕES.”
De manhã bem cedo, já estávamos na pista. O tempo não
era bom. Nuvens baixas, chuvas isoladas e visibilidade
restrita. O METAR dizia que Porto Seguro estava melhor
que Caravelas. Os dois aeroportos estavam abertos para
vôo visual, mas com visibilidade e teto pouco acima dos
mínimos.
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Tínhamos combustível suficiente para ir direito para
Porto Seguro e, então, rumamos para lá. Só que, depois
de 20 minutos de vôo, as nuvens colaram em uma pequena
cadeia de montanhas, impedindo nossa passagem. Pedi ao
meu irmão: “Vê aí no mapa a altura dessas montanhas”.
Ele respondeu: “Essas montanhas não estão aqui no mapa.”
Pedi ao Ricardo que segurasse o manche e peguei a carta
meio aborrecido com a incompetência do meu copila. Mas o
homem estava certo. Aqueles morrotes não constavam no
mapa. Subi em espiral para ver a possibilidade de passar
por cima da camada. Mas, acima da primeira, havia uma
segunda camada, e eu não
estava afim de virar recheio de sanduíche. Decidimos
retornar para Nanuque. |
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O tempo sobre a cidade havia piorado e pousamos
debaixo de chuva moderada. Pensei comigo: depois desses 50
minutos de vôo inútil, vamos ficar com combustível na conta
certa para chegar a Caravelas na próxima decolagem. O que me fez
lembrar de uma velha história em São Mateus.http://www.abul.com.br/aventuras/rio-pseguro-rio/relato.htm.
“A ÚNICA SITUAÇÃO EM QUE VOCÊ PODE ACHAR QUE TEM
COMBUSTÍVEL DEMAIS É QUANDO HÁ UM PRINCÍPIO DE INCÊNDIO
EM SEU AVIÃO.”
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Em Nanuque, havia um hangar. Logo, deveria haver
um avião. Logo, deveria haver combustível. Foi
com esse perspicaz raciocínio e com a ajuda dos
moradores de Nanuque que chegamos à loja do
Comandante Tadeu, proprietário de um Monney e de
um Pelican, o único aliás que voa sob o seu
comando. Tadeu explicou que seu piloto
particular, o Comandante Geo, não o deixa nem
tocar no Monney. Tadeu nos recebeu muito bem e
ligou para seu piloto, que, minutos depois, se
juntou a nós. |
Antes de pedirmos qualquer coisa, Tadeu disse
que tinha estocado mais de mil litros de Avigas e que eu poderia
usar o quanto quisesse, pagando o preço que achasse justo. Mais
uma vez meu irmão ficou surpreso com a generosidade entre
pilotos. O Comandante Geo nos levou até o aeródromo, abasteceu o
nosso avião, nos levou para almoçar e, depois de insistentes
pedidos meus, nos contou algumas histórias de seu tempo de
piloto de garimpo.
Geo dizia que a floresta amazônica era doente.
Tudo ali estava contaminado, envenenado, repleto
de pragas e de animais à espreita. Segundo ele,
árvores enormes, aparentemente saudáveis, eram
completamente ocas por dentro por causa da ação
de uma espécie de cupim. Homens que dormiam
desprotegidos acordavam com um buraco no corpo,
invadido por um verme. Só se andava na floresta
de chapéu, caso contrário uma pequena cobra
disfarçada de cipó morderia o seu pescoço e
poderia matá-lo. Tomar banho no rio nem pensar.
O candiru, um peixe minúsculo, tem o estranho
hábito de entrar pela uretra humana. E ele só
sai de lá com intervenção cirúrgica. Pequenos
lagos com água cristalina estavam contaminados.
Só se bebia água do rio se ela fosse corrente.
Sem falar do risco de ataque de animais ferozes
e da malária. Aliás, segundo Geo, todos os
garimpeiros, inclusive ele, já tiveram malária.
Ao andar na floresta, se você aguçar os ouvidos,
vai ouvir uma voz repetindo permanentemente:
“Você não é bem-vindo”. Curiosamente, apesar de
tudo isso, Geo sente saudades do tempo de
garimpo. Definitivamente, esse negócio de ouro
vicia.
Na manhã seguinte, o prestativo Comandante Geo
estava na porta do hotel para nos levar até o
aeroporto. (Sim, na segunda noite, saímos do
muquifo). O tempo não estava bom. Geo já trazia
o METAR de Porto Seguro e Caravelas. O primeiro
aeroporto estava fechado para vôo visual. O
segundo estava operando nos mínimos. Ele nos
aconselhou a permanecer em Nanuque.

“É BEM MELHOR ESTAR AQUI EMBAIXO DESEJANDO ESTAR LÁ EM CIMA DO
QUE ESTAR LÁ EM CIMA DESEJANDO ESTAR AQUI EMBAIXO.”
Apesar da simpatia de nossos anfitriões e da cidade, eu queria
aproveitar minhas férias. Queria voar. Tomei a decisão de
esquecer o Festival de Mossoró, já que não chegaríamos a tempo,
e voltar para Guarapari e aproveitar uma praia, se o tempo por
aquelas bandas estivesse melhor. O METAR confirmou que sim. A
questão era só saber se conseguiríamos sair de Nanuque. O
Comandante Geo me aconselhou a permanecer. Disse que o teto
estava baixo demais e que seria arriscado. Mas, como tínhamos
combustível à nossa disposição, decidi fazer uma tentativa. Se
depois de 10 minutos de vôo na proa de Vitória o tempo não
melhorasse, eu retornaria.
“DECISÕES ACERTADAS VÊM COM A EXPERIÊNCIA. A EXPERIÊNCIA VEM COM
DECISÕES ERRADAS.”
A decisão foi acertada. À medida que seguíamos, o tempo ia
melhorando. No través de Linhares, estávamos praticamente voando
livres de nuvens e com visibilidade ilimitada. Pousamos em João
Monteiro para deixar o SEG já abastecido e, cinco minutos
depois, pousamos em Guarapari. Uma descendente na longa final e
um ventinho de través dificultaram o pouso, que acabou ocorrendo
sem problemas. Meio catrapo, mas sem problemas.
PS: Sugerimos a moqueca de banana do quiosque do Bahiano.
“EXISTEM 3 REGRAS PRA FAZER UM POUSO MACIO. INFELIZMENTE,
NINGUÉM SABE QUAIS SÃO.”
No dia seguinte, caminhamos na praia, tomamos cerveja, comemos
camarão, essas coisas desagradáveis que fazemos quando estamos
de férias, sabe?
À noite, tivemos que encarar uma moqueca de lagosta. Um trabalho
sujo, é verdade, mas alguém tinha que fazê-lo.
No dia seguinte, começo da tarde, já estávamos de novo
desamarrando o avião. A idéia era seguir direto para Porto
Seguro. Mas, na vertical de
Prado, o comandante aqui sentiu uma necessidade terrível de
drenar combustível. Mas cadê que eu achava a danada da pista?
Depois de dar umas 10 voltas sobre o litoral e de dar uns 20
esporros em meu copila e navegador, chamei Caravelas:
“Caravelas, o SEG, na vertical de Prado, está
seguindo para pouso em seu campo.”
Eu já estava prestes a fazer xixi nas calças. Pousei em
Caravelas e corri para o banheiro. Aproveitei para abastecer o
avião, antes de seguir para Porto Seguro. Ao passar sobre Prado,
consegui localizar a pista. A nova pista. Tanto o GPS quanto a
carta forneciam indicações erradas, da pista antiga. Agora, ela
não estava mais no litoral, no setor sul, e sim no setor
norte, da cidade.
No meio da viagem, percebi que algo estava errado comigo.
Comecei a sentir dor no corpo, irritação na garganta e a soar um
bocado, a despeito do vento frio que entrava na nacela. A febre
estava chegando.
Chegamos a Porto Seguro bem próximo do pôr-do-sol, e o
controlador ainda me deixou uns 10 minutos em espera. Pousamos
entre dois Fokker 100 da TAM. Meio tenso, o controlador pedia
que eu agilizasse o pouso. O que fiz, na medida do possível.
Pousei veloz, sem flap, e livrei na primeira interseção.
“VOAR NÃO É PERIGOSO. PERIGOSO É CAIR.”
Ao chegar ao hotel em Porto Seguro, a febre aumentou. Eu
suava em bicas, sentia um frio absurdo e meu pescoço
estava muito inchado. Resumindo, parecia um buldogue que
acaba de sair do banho. Rapaz, eu não sou muito bonito,
mas, dessa vez, a situação estava crítica. E meu irmão,
um gênio da medicina diagnóstica, ficou apavorado,
dizendo que eu estava com dengue.
No dia seguinte, não acordei melhor e fui para uma
clínica. O médico disse a frase que eu mais temo na
vida, depois de “Minha menstruação atrasou, gatinho”. O
médico disse o seguinte: “Você vai ter que tomar
Benzetacil. Se quiser melhorar logo dessa amidalite.”
Eu já estava com a poupança doendo, depois de quase 10
horas de vôo. Imagine só. Mas a enfermeira alemã era tão
competente quanto assustadora. A injeção não doeu tanto,
e, no dia seguinte, eu já estava melhor.
Foram 3 dias de muita diversão, cerveja, capeta (uma
bebida local à base de guaraná, leite condensado, vodca
e nitroglicerina), camarão, lagosta e praia. Já era hora
de ir embora.
Antes, preciso contar algo que, se eu omitisse,
meu irmão jamais me perdoaria. A dançarina de axé de um
megaquiosque à beira-mar, uma loira bonitona, ficou
encantada pelo Ricardo. E, depois que ele conversou com
ela, a moça desabrochou e passou a dançar sensivelmente
mais animada e mais feliz, sem tirar os olhos da nossa
mesa. Ela tinha namorado, e, por isso, o Ricardo não a
trouxe pra casa. Mas não é todo dia que uma moça como
aquela flerta com você. O ego do sujeito estava tão
inflado que temi pelo excesso de peso no avião. Quase o
despachei por um avião cargueiro.

“TRÊS FRASES QUE UM CO-PILOTO PRECISA TER NA
PONTA DA LÍNGUA: ‘BELO POUSO, COMANDANTE’, ‘FOI O VENTO,
COMANDANTE’ E ‘A GORDA É MINHA, COMANDANTE’.”
O vôo na volta foi um pouco tenso. A frente fria que havia
passado por São Paulo e pelo Rio de Janeiro agora cobria
todo o Espírito Santo. Nenhum METAR dos aeroportos da rota
era animador. Só depois de Campos as coisas pareciam
melhores. Decidimos voar até Caravelas, abastecer, já que em
Porto Seguro não tinha avigas, e lá decidir o que fazer.
Em Caravelas, tivemos um presente: vimos o pouso de um
Xavante. Foi a primeira vez que vi o caça de perto, e logo,
logo, essa velha ave vai ser
aposentada. O piloto era um major da FAB.
Você, assim como os taxistas de Nanuque, vai achar que sou
veado, mas preciso confessar uma coisa: o major era
boa-pinta, tinha voado na Fumaça durante cinco anos e agora
pilotava caças. Fiquei com uma baita inveja do sujeito. Uma
espécie de top gun brasileiro. Pronto, agora é que você vai
achar que eu sou bicha mesmo. Sim, porque Top Gun é um dos
filmes mais gays da história do cinema. Basta lembrar da
cena dos pilotos jogando voleibol na areia e de uma das
últimas frases do filme: “You can ride my tail anytime”.
Mas vamos deixar de veadagem e contar o fim da nossa
aventura.
Decolamos de Caravelas, e, voando baixinho – durante algum
tempo embaixo de chuva -, depois de quase duas horas,
chegamos a Guaraparí. No dia
seguinte, mais duas horas e quarenta minutos de vôo até o
Clube CEU.
Durante toda a viagem foram percorridas 1895 milhas em 20
horas.
A aventura não saiu exatamente como planejada. Mas é por
isso que se chama aventura. E a coisa mais interessante
nesse tipo de vôo são
justamente os lugares e as pessoas improváveis que acabamos
conhecendo. A gente pode desenhar uma rota, mas o destino
está sempre nas mãos do
supremo comandante.
Por alguma razão, eu precisava conhecer a pequena Nanuque.
Por alguma razão, o Comandante Geo precisava passar suas
histórias adiante. Por
alguma razão, o Comandante Tadeu precisava saber que,
enquanto ele só trabalha, tem gente se divertindo. Quem sabe
não pousamos em Nanuque só
para atender a um pedido do pequeno avião do Tadeu, que
estava se sentindo muito preso no hangar. Por alguma razão,
a dançarina de axé
precisava do sorriso do meu irmão, e, por alguma razão, o
meu irmão precisava do sorriso dela. Seja lá a razão de tudo
isso, o melhor da vida é
esse vôo rumo ao desconhecido.
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Este relato é dedicado aos Comandantes Geo e
Tadeu, à formosa dançarina de axé e ao meu irmão,
Ricardo, que, muito antes de eu pensar em voar, já
era meu navegador.
“A HÉLICE É SIMPLESMENTE UM GRANDE VENTILADOR EM
FRENTE AO AVIÃO PARA MANTER O PILOTO FRIO. A PROVA
DISSO É QUE, QUANDO ELA PÁRA, O PILOTO IMEDIATAMENTE
COMEÇA A SUAR.”
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