Como nasceu o interesse pelos aviões do Comandante Barbará
O nascimento dessa paixão foi mesmo cedo, na simpática Uruguaina, Rio Grande do Sul. Na cidade que ostenta hoje o título de maior porto seco da América Latina e terceiro maior do mundo, o pequeno Barbará se lembra de ir direto da missa para o grande evento que reuniu as maiores autoridades da cidade e também do país: a inauguração do aeroclube da cidade. "Eu me lembro que entre os convidados, estava o Salgado Filho, na época, Ministro da Aeronáutica", conta. Barbará não tinha mais do que 12 anos e ficou encantado com o primeiro avião que viu, doação de seu avô Baldomero Barbará ao clube. "Na época, o (Assis) Chateabriand pressinou os empresários, como o meu avô, a fazerem doações e ele comprou um Piper, como um ultraleve hoje. Era um avião pequeno, um monomotor", detalha.
Com a admiração, veio também a vontade de comandar essa máquina que fascina a humanidade desde o início dos tempos. Voar era algo que Barbará precisava fazer. "Quando completei 17 anos, estava determinado a tirar o brevê. Mas meus pais acharam que era muito perigoso e me proibiram. Eu deveria me dedicar ao serviço militar obrigatório que estava por vir". Mas os caminhos do destino fizeram com que o acidente de um amigo próximo durante o treinamento no exército o empurrasse direto pelo ar. "Infelizmente, ele perdeu um rim e isso marcou muito meus pais. Então, eles mudaram de ideia e começaram a achar que perigoso mesmo era eu servir". E lá se vão seis décadas com a licença de piloto na mão.
"É a experiência que traz essa capacidade de filosofar em um vôo"
Barbará
A primeira aeronave veio há 35 anos atrás. Em 1976, Barbará adquiriu um Piper Path Finder para fugir das longas filas e evitar os aviões antigos disponíveis para os aluguéis, mesmo ano em que sofreu seu primeiro grande acidente aéreo. "Tivemos uma pane e caímos no que hoje é a Avenida Aberlardo Bueno. Uma senhora vinha em uma Brasília e chuviscava um pouco. Nós desviamos porque vimos que ela não estava acreditando no que via. Imagine só, você estar dirigindo e de repente vir um avião em alta velocidade na sua direção?", relata.
Barb ará conta ainda que precisou desviar bastante para evitar que a asa da aeronave atingisse o automóvel e provocasse, além da batida, uma explosão do tanque de gasolina: "Mas quando nós desviamos dela, tivemos que bater nas placas de trânsito. A terceira levou tudo embora: asa, trem de pouso, rabo... Isso que dizem que você vê toda sua vida como num flash num momento como esse não é verdade. Pelo contrário. O seu cérebro funciona muito rápido e o resto, devagar. Eu me lembro de pensar: "puxa, esse avião não vai parar, não?", lembra. Balanço do incidente: perda total da aeronave, nenhum ferido e uma bela história para contar.
E quem pensa que isso pode ter intimidado Barbará, se engana. De lá para cá, o comandante teve outras cinco aeronaves, entre monomotoras e bimotoras. A última é a mais diferente, um anfíbio com prefixo Echo Papa Mike de cerca de quatro metros e capacidade para duas pessoas: "Comprei do Edson (Pimentel) em 2007 que brincava ser um avião com pedigree". Barbará ressalta a dificuldade extra de se ter um anfíbio porque para pousá-lo na água, é preciso que o mar esteja muito calmo. Estranho? Nem um pouco. Outra grande paixão de Barbará é velejar, esporte que ele praticou por muitos anos em substituição ao voo esportivo.
Quando perguntado sobre qual dos dois esportes seria o mais difícil, Barbará esclarece que ambos dependem do vento, e por isso, se assemelham. Mais do que por questões de preparo físico, o voo leva o trofeu de esporte mais sereno. "Acho que o veleiro exige um preparo físico maior. O avião precisa de saúde, mas não necessariamente de preparo físico. No veleiro, você tem que saber e estar preparado para ficar noites à fio no frio, comer mal, ficar andando inclinado dentro do barco...".
F
oi através do anfíbio que Barbará diz ter, finalmente, conciliado suas duas formas de amar o vento. E é com ele que o comandante tem conseguido apreciar paisagens inesquecíveis como as de Angra dos Reis e Saco do Céu: "As mais bonitas estão alí naquela região", opina.
As vistas são tão fascinantes que inspiraram o comandante a se lembrar da paisagem que ele julga ser a mais impressionante que já viu. "O que mais me encanta são os dias em que há muitas nuves e chuva, porque você passa aquela chuva fina e, de repente, como numa explosão, você vê aquele tapete branco e aquele céu azul espetacular".
Hoje, com experiência de sobra na aviação esportiva, Barbará consegue compreender a maestria que é poder filosofar sobre esse esporte, esse hobby, essa arte que é voar. "Só depois de um bom tempo você consegue entender que nos primeiros voos você não curte nada. Não dá porque você está tão preocupado em não errar, em não esquecer as coisas, que você não consegue aproveitar. Por isso também os primeiros voos são tão marcantes. É a experiência que traz essa capacidade de filosofar em um voo", termina.











